Meu amigo Raoul me pergunta sobre vinhos da Catalunha. Da Catalunha, respondo, só conheço as cavas, grandes espumantes feitos na terra onde a árvore genealógica de meu amigo tem sólidas raízes. Mas, como múltiplas e infinitas raízes também tem a árvore do conhecimento, nunca se sabe quando tropeçaremos em uma de suas extensas ramificações.Não é de hoje que o touro é um animal de grande simbolismo para os povos mediterrâneos. Minos, o rei de creta, mantinha um em seu labirinto. Disfarçado de touro, Júpiter seduziu a bela Europa. Em Alexandria, os súditos de Cleópatra reconheciam no boi ápis a representação do deus Osiris. Assim como, em Argos, as mulheres viam no touro que emerge das águas a representação de Dionísio, deus do vinho.
Gregos e romanos, os poetas clássicos sempre associaram a força do touro à potência do vinho. Pegando carona, Ernest Hemingway escreveu que o gosto pelas touradas é proporcional ao gosto pelos vinhos. Era de se imaginar, portanto, que na região onde se encontra a Monumental Plaza de Touros houvesse vinhos mais robustos do que aqueles que o escritor norte-americano considerava como sendo menores e, por esta razão, indicados para iniciantes em vinhos e touradas, os vinhos frisantes.
Eu não sabia. Mas, há 54 anos é produzido em Barcelona este Sangre de Toro, naturalmente, tinto e robusto. Feito com uvas garnacha e cariñena é descrito com um vinho de aroma e sabor mediterrâneos, ideal para acompanhar a aromática e saborosa culinária catalã. Agora sei. E por isso, ergo uma taça na direção da Sagrada Família e faço um brinde a Raoul, Gaudí, Picasso e a este bravo herói que verte sangre e coragem nas plazas de Espanha, el toro.
Tão certa como qualquer uma das três fundamentais leis de Newton é a certeza de que a maior distância que se pode percorrer no universo enológico é aquela que separa Mendoza, na Argentina, do Vale dos Vinhedos, no sul do Brasil. Afastados por intransponíveis mil ou dois mil quilômetros, estão vinhos de espécies - e principalmente qualidades - tão distintas como animais que começaram a se diferenciar quando os continentes ainda eram uma única Gonduana. Mas este postulado científico dá ares de que será brevemente revisto.