Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Da Monumental Plaza de Toros a esta humilde adega

Meu amigo Raoul me pergunta sobre vinhos da Catalunha. Da Catalunha, respondo, só conheço as cavas, grandes espumantes feitos na terra onde a árvore genealógica de meu amigo tem sólidas raízes. Mas, como múltiplas e infinitas raízes também tem a árvore do conhecimento, nunca se sabe quando tropeçaremos em uma de suas extensas ramificações.
Não é de hoje que o touro é um animal de grande simbolismo para os povos mediterrâneos. Minos, o rei de creta, mantinha um em seu labirinto. Disfarçado de touro, Júpiter seduziu a bela Europa. Em Alexandria, os súditos de Cleópatra reconheciam no boi ápis a representação do deus Osiris. Assim como, em Argos, as mulheres viam no touro que emerge das águas a representação de Dionísio, deus do vinho.
Gregos e romanos, os poetas clássicos sempre associaram a força do touro à potência do vinho. Pegando carona, Ernest Hemingway escreveu que o gosto pelas touradas é proporcional ao gosto pelos vinhos. Era de se imaginar, portanto, que na região onde se encontra a Monumental Plaza de Touros houvesse vinhos mais robustos do que aqueles que o escritor norte-americano considerava como sendo menores e, por esta razão, indicados para iniciantes em vinhos e touradas, os vinhos frisantes.
Eu não sabia. Mas, há 54 anos é produzido em Barcelona este Sangre de Toro, naturalmente, tinto e robusto. Feito com uvas garnacha e cariñena é descrito com um vinho de aroma e sabor mediterrâneos, ideal para acompanhar a aromática e saborosa culinária catalã. Agora sei. E por isso, ergo uma taça na direção da Sagrada Família e faço um brinde a Raoul, Gaudí, Picasso e a este bravo herói que verte sangre e coragem nas plazas de Espanha, el toro.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Medalha de ouro em Bratislava

Tão certa como qualquer uma das três fundamentais leis de Newton é a certeza de que a maior distância que se pode percorrer no universo enológico é aquela que separa Mendoza, na Argentina, do Vale dos Vinhedos, no sul do Brasil. Afastados por intransponíveis mil ou dois mil quilômetros, estão vinhos de espécies - e principalmente qualidades - tão distintas como animais que começaram a se diferenciar quando os continentes ainda eram uma única Gonduana. Mas este postulado científico dá ares de que será brevemente revisto.
Denominação de origem controlada é uma espécie de atestado de boa procedência no mundo dos vinhos. A maior parte das DOCs está situada no continente europeu, berço dos Bordeaux, Chianti, Rioja, Douro, Alentejo, Champagne, Tokay, Toro e uma grande variedade de nascedouros privilegiados. Fora da Europa, no entanto, somente duas indicações geográficas gozam de tamanho prestígio: a região do Napa Valley, nos EUA, e o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha.
No exato momento em que os produtores gaúchos celebram a recente conquista, fui convidado para analisar, em conjunto com os blogs Vivinhos, Vinho para Todos e Viva o Vinho, este Lovara Cabernet Sauvignon 2005, filho legítimo da mais nova DOC. Sob o peso de tal responsabilidade, optei por proceder uma análise científica do produto que, recentemente, conquistou medalha de ouro no décimo-quinto Vinoforum International Competition 2006, na República da Eslováquia. Cor: azul fechado como o céu de Bento Gonçalves, sem o brilho das estrelas de Gramado. Aroma: cordial, mas sem a simpatia da rainha da uva de Caxias do Sul. Gosto: correto, mas sem a franqueza de uma cozinha tipicamente italiana da região. Resultado: medalha de ouro em Bratislava. Jantando com a família no interior do Wyomming, Robert Parker poderia dar uma nota melhor. Almoçando com seu gerente de banco, Michel Roland também. E quem sabe a impressão que teria este Lovara num pequeno restaurante de Canela? Conclui-se e confirma-se com esta análise que a ciência, não importa se enológica ou quântica, depois de Einstein, ficou muito relativa.