Pablo Neruda é poeta da terra, do povo, do amor e da boa mesa. Em seus escritos, não esconde intensa paixão pelo Chile, pelos trabalhadores, pelas mulheres, pela boa comida e bebida. Ao vinho, dedicou um poema e muitas metáforas. Partidário de uma sociedade equalitária, além da Ode ao Vinho, dedicou sonetos também ao tomate, à cebola, à alcachofra, à maçã e a todos aqueles que labutam no Mercado Central de Santiago. Teve infância pobre. Colocou no prego o relógio que ganhou do pai para custear o primeiro livro. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Adepto fervoroso dos vinhos de seu país, não conheceu o Sideral aí da foto. Vinho novo, fruto da globalização, nasce em um vale situado aos pés dos Andes. A união de um poderoso grupo francês, Dassault, com uma empresa chilena criou a vinícola que, além do Sideral, também produz o Altair, a estrela mais brilhante da constelação da águia. Não é um vinho popular. Ainda, não. Custa uns 40 dólares lá em Santiago. Mas é extremamente bem feito, com um corte bacana de Cabernet, Merlot e um punhado de outras castas em menor quantidade. Mas é o Sideral mesmo que eu escolheria para ilustrar as palavras do poeta. Diz Neruda: " Amo sobre uma mesa / quando se fala, / à luz de uma garrafa de inteligente vinho." Digo eu: que o tempo transcorra com sabedoria para que, devidamente maduros, homens e vinhos possamos falar à mesa com Don Pablo, Violeta Parra, Victor Jara, Gabriela Mistral e outros ilustres companheiros libertários, enquanto desfrutamos do vinho cor do dia, do vinho cor da noite, do sangue de topázio e do estrelado fruto da terra. E assim que se apagarem os corpos celestes do firmamento austral, estejamos prontos para cumprir a profecia de Rimbaud, citada por Neruda em seu discurso de Estocolmo: " ao amanhecer, armados com ardente paciência, conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens." Segunda-feira, Julho 31, 2006
À mesa com Don Pablo
Pablo Neruda é poeta da terra, do povo, do amor e da boa mesa. Em seus escritos, não esconde intensa paixão pelo Chile, pelos trabalhadores, pelas mulheres, pela boa comida e bebida. Ao vinho, dedicou um poema e muitas metáforas. Partidário de uma sociedade equalitária, além da Ode ao Vinho, dedicou sonetos também ao tomate, à cebola, à alcachofra, à maçã e a todos aqueles que labutam no Mercado Central de Santiago. Teve infância pobre. Colocou no prego o relógio que ganhou do pai para custear o primeiro livro. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Adepto fervoroso dos vinhos de seu país, não conheceu o Sideral aí da foto. Vinho novo, fruto da globalização, nasce em um vale situado aos pés dos Andes. A união de um poderoso grupo francês, Dassault, com uma empresa chilena criou a vinícola que, além do Sideral, também produz o Altair, a estrela mais brilhante da constelação da águia. Não é um vinho popular. Ainda, não. Custa uns 40 dólares lá em Santiago. Mas é extremamente bem feito, com um corte bacana de Cabernet, Merlot e um punhado de outras castas em menor quantidade. Mas é o Sideral mesmo que eu escolheria para ilustrar as palavras do poeta. Diz Neruda: " Amo sobre uma mesa / quando se fala, / à luz de uma garrafa de inteligente vinho." Digo eu: que o tempo transcorra com sabedoria para que, devidamente maduros, homens e vinhos possamos falar à mesa com Don Pablo, Violeta Parra, Victor Jara, Gabriela Mistral e outros ilustres companheiros libertários, enquanto desfrutamos do vinho cor do dia, do vinho cor da noite, do sangue de topázio e do estrelado fruto da terra. E assim que se apagarem os corpos celestes do firmamento austral, estejamos prontos para cumprir a profecia de Rimbaud, citada por Neruda em seu discurso de Estocolmo: " ao amanhecer, armados com ardente paciência, conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens." Sábado, Julho 15, 2006
Desocupado Leitor
Consta nos guias dedicados ao vinho que La Mancha, região central da Espanha, é a mais extensa área vinícola do mundo, abrangendo 170 mil hectares de vinhedos de origem controlada. Seus vinhos são descritos nesses guias como simples, ligeiros e de bom frescor. E aí deixamos de lado a simplicidade, a ligeireza e, acima de tudo, a boa frescura dos guias enológicos para entrar nas páginas da maior obra literária de todos os tempos. A saga do Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha foi eleita, em 2002, de maneira unânime entre os principais críticos literários, o melhor livro de ficção jamais escrito. Mas, em 1605, ao publicar sua obra-prima, Miguel de Cervantes tinha tão somente a intenção de produzir uma obra que elevasse o espírito humano um graal acima dos romances medievais e dos amores platônicos neles embutidos. Certo dia, desfeita sua extensa biblioteca, o fidalgo Don Quijana decidiu transformar sua vida num romance de cavalaria. Munido de armadura, lança, cavalo magro e um ajudante roliço, partiu em busca do grande amor de sua vida. Não precisou ir muito longe. Ali mesmo, pelas redondezas, deu de cara com a exuberante camponesa Aldonsa e tomou-a, na mesma hora pela senhora de seu coração e destino, a nobre dama Dulcinéia del Toboso. Não tivesse já encontrado o amor de minha vida, eu, como Don Quixote, partiria em santa loucura e peregrinação pela Espanha. Montado num cavalo Rocinante e na companhia de um fiel amigo Sancho, começaria pelo noroeste, terra dos Ribera del Duero, dos galegos Bierzo, Ribeira Sacra, Monterrey, Valdeorras, dos Toro de Valladolid; depois, visitaria, no outro lado, o País Basco e a Catalunha atrás do Txacoli de Vizcaya, dos Priorat, das Cava e de qualquer vinho produzido na Rioja. Sem escalas, seguiria direto para o sul, onde provaria os Jerez lá na fronteira e os brancos de Valencia. Só então, feito esse percurso, seguiria para o centro. Antes de chegar a La Mancha, porém, pararia nos arredores de Madrid para comprar um tempranillo, em Méntrida um Garnacha, em Toledo uma espada e, em Guadalajara, um coquetel a base de alcachofra que faz muito bem ao fígado. Missão cumprida, descansaria em qualquer taberna na região de La Mancha. Chegaria sem pressa, esperando que o sábio taberneiro do balcão visse minha chegada e de lá gritasse para a cozinha - " Aldonsa, o melhor vinho da casa para o cavaleiro da triste figura!". Segunda-feira, Julho 10, 2006
Eu, que pensava que os grandes vinhos eram pisados por bailarinas.
Não são. Mas a pisa da uva é uma prática realizada desde os primórdios da humanidade. A partir do momento em que Baco, no grego Dionísio, plantou a primeira uva, muitos foram os que recomendaram o produto de seus frutos. Noé, diz a Bíblia, plantou uma vinha e tendo bebido o seu vinho, embriagou-se em sinal de agradecimento. Resultado: encalhou a arca no Monte Ararat e nós estamos aqui até hoje. Na antiga Grécia, Hipócrates, o pai da medicina, enaltecia as propriedades medicinais do vinho. Passaram-se 1.700 anos e algumas revistas semanais ainda falam disso como se fosse novidade. Estava lá na Babilônia e agora no Louvre, inscrita no granito negro do Código de Hamurabi, a lei que autoriza e regula o funcionamento das casas de vinho. Paracelso, o grande filósofo hermético, teria obtido o elixir da longa vida a partir do vinho e, segundo afirmam alguns esotéricos, completou recentemente a idade de 1.125 anos e é um pequeno, porém renomado, produtor de vinhos no Alentejo. O fato é que não é de hoje que os frutos da parreira são pisados em tanques conhecidos pelo nome de lagares. A pisa é o processo que acelera a fermentação da uva e sempre foi realizada por homens. Nunca foi permitido às mulheres entrarem no lagar. Dizem que os hormônios femininos geram certa incompatibilidade química que faz o vinho desandar. Se é verdade ou não, nunca o saberemos, pois é cada vez menor a produção de vinho a partir da pisa. Os modernos tanques de aço, que substituíram o processo artesanal milenar, introduziram a tal maceração carbônica, descrita pela fórmula C6H12O6 = 2C2H5CH + 2 CO2. Louis Pasteur que, não por acaso, testou o processo de pasteurização no leite, disse certa vez que há mais filosofia em uma garrafa de vinho do que em todos os livros. Pode ser. Pode ser também que os tanques de aço tenham acabado com boa parte dessa filosofia. Mas eu juro que se aparecer um vinho russo, produzido a partir de uvas siberianas, pisadas pelas bailarinas do Bolshoi, no ritmo da melodia de Tchaikovsky, eu compro na hora.
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