31.7.06

À mesa com Don Pablo


Pablo Neruda é poeta da terra, do povo, do amor e da boa mesa. Em seus escritos, não esconde intensa paixão pelo Chile, pelos trabalhadores, pelas mulheres, pela boa comida e bebida. Ao vinho, dedicou um poema e muitas metáforas. 

Partidário de uma sociedade equalitária, além da Ode ao Vinho, dedicou sonetos também ao tomate, à cebola, à alcachofra, à maçã e a todos aqueles que labutam no Mercado Central de Santiago. Teve infância pobre. Colocou no prego o relógio que ganhou do pai para custear o primeiro livro. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. 

Adepto fervoroso dos vinhos de seu país, não conheceu o Sideral aí da foto. Vinho novo, fruto da globalização, nasce em um vale situado aos pés dos Andes. A união de um poderoso grupo francês, Dassault, com uma empresa chilena criou a vinícola que, além do Sideral, também produz o Altair, a estrela mais brilhante da constelação da águia. 

Não é um vinho popular. Ainda, não. Custa uns 40 dólares lá em Santiago. Mas é extremamente bem feito, com um corte bacana de Cabernet, Merlot e um punhado de outras castas em menor quantidade. Mas é o Sideral mesmo que eu escolheria para ilustrar as palavras do poeta. 

Diz Neruda: " Amo sobre uma mesa / quando se fala, / à luz de uma garrafa de inteligente vinho." 

Digo eu: que o tempo transcorra com sabedoria para que, devidamente maduros, homens e vinhos possamos falar à mesa com Don Pablo, Violeta Parra, Victor Jara, Gabriela Mistral e outros ilustres companheiros libertários, enquanto desfrutamos do vinho cor do dia, do vinho cor da noite, do sangue de topázio e do estrelado fruto da terra. 

E assim que se apagarem os corpos celestes do firmamento austral, estejamos prontos para cumprir a profecia de Rimbaud, citada por Neruda em seu discurso de Estocolmo: " ao amanhecer, armados com ardente paciência, conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens."

9 comentários:

Paco Torras disse...

Eduardo, parabéns pelo seu texto e por não ligar a mínima para esses Robert Parkers da vida. Como carioca convido vc e seus leitores a conhecer uma pretensa versão comestível do Pisando, em bistrocarioca.blogspot.com. Vc vai ver que pelo menos temos o mesmo bom gosto :-)

Laura disse...

Gosto do que escreve e cita. Ah o Neruda...
abs, laura

Pedroca disse...

Não acredito em destino, mas com certeza, as “correntes” da internet em algum momento me levariam ao seu blog. Poesia+Vinho = ?, não sei bem o que resulta dessa equação, mas me agrada muito, me entorpece, me incentiva, acalenta, me torna mais criativo, ou melancólico, depende do vinho e da poesia, mas ambos são sempre bem vindos.

Eu é que agradeço a sua visita, num blog tão humilde e bagunçado como o meu, espero que visite mais vezes, e não repare na begunça.

fernando cals disse...

Oi, Eduardo,
depois da sua visita, lembrei-me dos vinhos, dos bons e generosos vinhos, motivo maior do seu blogue.
E lembrei-me, também que as vezes venho por aqui e não deixo comentários. Mas, saio inebriado e feliz.
Ao meu filho, um novel apreciador dos vinhos e das suas identidades, idiquei seu blogue. Ele gostou muito.
Abração
fernando cals

P.Rosendo disse...

Espectaculo. Obrigado pela visita ao meu blog.

Abraços

CrissMyAss disse...

Ai, ai.
Que lindo.

Picles disse...

Ô Dudowz, grande iniciativa essa e, acima de tudo, pretexto incondenável para sacar mais e mais rolhas...

Aqui nas Inglaterras eu não tô podendo muito e os vinhos que tenho aberto - com frequência de somelier wanna-be - são com tampinha de rosca, que deve ser o maior anti-clímax da enologia, creio eu. Mas enquanto a libra permanecer esterlina tenho que aposentar o saca-rolhas, relaxar e gozar porque, afinal de contas, não posso reclamar de língua roxa.

Saludos meu querido e por favor não deixe de resenhar sobre o rose, que é o Jards Macalé dos vinhos: malditão, mas que eu gostchu mutchu.

Cheers,

Guga

CrissMyAss disse...

Eduardo, o debate continua, agora com pesquisa de alta relevância estatística:
Vai lá entregar tua idade, muitos já o fizeram.
abçs.

Anônimo disse...

Estava eu viajando pelo mundo vitual atrás de uma foto ou ilustração que mostrasse o processo artesanal de esmagar as uvas com os pés, posto que estou fazendo um trabalho e preciso de tal foto ou ilustração.

Não encontrei. Mas me deparei com o teu blog, Eduardo, e aqui pousei por bons e inebriantes momentos. Quase tomei um porre de vinho lendo os teus textos, muito bem escritos por sinal.

Tem muitos que falam mal desse canal. Talvez por que jamais procuraram fazer uma viagem-aventura e, sem o propósito, encontrar páginas com esse bom canteúdo. Acredito que ficariam, igualmente, embriagados só com o "bouquet" de textos como os teus.

É isso que falta à maioria dos internautas que, no fundo, só têm PC prá blog-besteiras, "visitar" páginas de pornografia (sexo "in natura", obviamente, é muito mais embriagante do que vinho e nesse caso o vinho serve como um afrodisíaco prólogo), mas virtual deve ser como comer a casca do abacaxi e jogar a polpa fora.

Ainda bem que temos blogistas com tais conteúdos.

ET: Antes que eu esqueça, se der um tempo faz uma visita ao BLIG DO JR (http://xisjota.blig.ig.com.br). E espero um comentário. Pode ser crítica construtiva. E prometo que serei um bom anfitrião.

Até lá ...