Quarta-feira, Março 28, 2007

Da necessidade de escalar montanhas

Indagado sobre as razões que o levavam a praticar o nobre esporte do montanhismo, um dos mais célebres escaladores de todos os tempos cunhou a frase que entrou para a história: "Eu subo as montanhas porque elas estão lá". E mais não disse.

Apesar de não ostentar em meu currículo a conquista de um monte sequer, discordo de tal afirmação. Montanhas devem ser escaladas para que se possa apreciar a vista que se tem lá de cima. Afinal, que outra razão justifica o insano desejo que nos move na direção dos elevados vértices que pairam desafiadores sobre a serena planície do cotidiano? Que outro motivo explica a necessidade de amadores como nós ousarmos atingir as mais elevadas e rarefeitas alturas dos míticos cumes da cordilheira de Bordeaux, ou dos sagrados santuários que despontam no altiplano da Borgonha, ou ainda, dos não tão famosos mas não menos elevados zênites do himalaia alentejano. Deve haver motivo maior do que o simples fato dele estar lá para que nos lancemos na vertiginosa direção de um Chateau Margaux.

Organizamos uma expedição. O alvo era um dos grandes everestes de Bordeaux, o legendário Chateau Haut-Brion 86, com altitude superior a 600 euros. A empreitada, dado o seu alto custo, foi devidamente cotizada e planejada com precisão e rigor alpinos: decantação duas horas antes, champagne inicial para dar coragem e um cordeiro assado com purê de maçã para sustentação. Com as estrelas do firmamento por testemunha atingimos o cume. Da linha divisória entre o céu e a terra, registrei a façanha na foto acima.

Montanhas, como bem intuiu o profeta Maomé, não saem do lugar. Cabe a nós o desafio de nos movermos até elas se quisermos conhecer o mundo além da serra gaúcha e outros acidentes geográficos. Acima de tudo, é preciso dar a devida atenção aos montes chilenos, argentinos, portugueses, espanhóis, australianos e neo-zelandeses que, das mais diversas alturas, destacam-se da paisagem com honestidade e altivez andinas. E, no caso de um desafio maior, é preciso fazê-lo com parcimônia e sabedoria. Como explica a filosofia zen, o sábio tem o dever de, uma vez na vida, subir o Monte Fuji. Somente aos não-sábios é permitido subir mais de uma vez.