Durante visita ao Chile, na década de 70, Fidel Castro foi apresentado por Salvador Allende ao companheiro Canepa Finissimo Cabernet Sauvignon. Em poucas horas de conversa, tornaram-se amigos de infância e ficou combinado que um contêiner deste Canepa desembarcaria na Ilha de Cuba, para ajudar na construção daquela república de médicos, músicos e bailarinas não subserviente ao grande irmão do norte. Quis o destino que tal fato nunca acontecesse, pois o invejoso general Pinochet assumiu o poder em Santiago e, ato contínuo, cancelou a remessa. Muitos são os vinhos do Chile, todos de grande valor. Em sua escolha, Fidel mostrou grande sabedoria e integridade. Mesmo entre os Canepa, poderia ter optado por um Magnificum, orgulho maior da vinícola, o que teria sido um arroubo de vaidade não condizente com a pessoa e a proposta do líder. Também poderia ter optado por um Canepa Classico, este que se encontra facilmente em qualquer supermercado, mas teria sido uma demonstração barata de demagogia. Prevaleceu a honestidade, o caráter, o bom senso, o equilíbrio e a sutileza deste Canepa Finissimo. Não é um vinho popular. Custa perto de 70 reais, um quinto do salário-mínimo no Brasil ou duas vezes o salário de um médico em Havana. Sem julgamentos, pois acredito que estes somente cabem à população de Cuba, e sem perder a ternura jamais, com uma taça deste Canepa Finissimo, brindo à saúde do velho comandante. Com a mão esquerda. Sempre. Até porque, eu sou canhoto.Quarta-feira, Outubro 25, 2006
Um brinde ao comandante
Durante visita ao Chile, na década de 70, Fidel Castro foi apresentado por Salvador Allende ao companheiro Canepa Finissimo Cabernet Sauvignon. Em poucas horas de conversa, tornaram-se amigos de infância e ficou combinado que um contêiner deste Canepa desembarcaria na Ilha de Cuba, para ajudar na construção daquela república de médicos, músicos e bailarinas não subserviente ao grande irmão do norte. Quis o destino que tal fato nunca acontecesse, pois o invejoso general Pinochet assumiu o poder em Santiago e, ato contínuo, cancelou a remessa. Muitos são os vinhos do Chile, todos de grande valor. Em sua escolha, Fidel mostrou grande sabedoria e integridade. Mesmo entre os Canepa, poderia ter optado por um Magnificum, orgulho maior da vinícola, o que teria sido um arroubo de vaidade não condizente com a pessoa e a proposta do líder. Também poderia ter optado por um Canepa Classico, este que se encontra facilmente em qualquer supermercado, mas teria sido uma demonstração barata de demagogia. Prevaleceu a honestidade, o caráter, o bom senso, o equilíbrio e a sutileza deste Canepa Finissimo. Não é um vinho popular. Custa perto de 70 reais, um quinto do salário-mínimo no Brasil ou duas vezes o salário de um médico em Havana. Sem julgamentos, pois acredito que estes somente cabem à população de Cuba, e sem perder a ternura jamais, com uma taça deste Canepa Finissimo, brindo à saúde do velho comandante. Com a mão esquerda. Sempre. Até porque, eu sou canhoto.Quarta-feira, Outubro 18, 2006
E pur si muove
Jacques Toutbon é um sujeito bem intencionado. E no entanto, atacam-no por defender a língua francesa dos anglicismos impostos pela tecnologia. Apesar de perseguido, o Ministro de le Culture, des Loisirs et de la Francophonie ostenta algumas vitórias. Por toda a França diz-se ordinateur para computador, le logiciel para software, le materiel para hardware e courrier electronique no lugar de e-mail. A Sony não deve gostar muito, mas walkman, na França, chama-se le balladeur. Por tais idéias, a moderna inquisição tachou o ministro de herege e deu-lhe o apelido de Jack Allgood. Solidário à causa, também eu sou perseguido pelo braço do santo ofício enológico por confessar publicamente o que consideram um pecado digno de se arder na fogueira: eu gosto de Beaujolais. Querem atirar ao fogo minha carteira de sommelier amador quando digo isso. Que joguem. Já está vencida e esquecida numa gaveta há muito. Nos restaurantes em que ela vale algum desconto no preço do vinho ou dispensa a cobrança da rolha, minha mulher defende a família. Não vejo motivo para que se considere menor um vinho que nasce no região que faz fronteira com os célebres vignobles de Chateaneuf du Pape e os ainda mais célebres pinot noir de Beaune. Se fosse em La Mancha seria tudo um terroir só. Dizem que é por causa da Gamay, a prima-pobre das uvas, com seu corpo esquálido e seu subdesenvolvido aroma de banana. Não vejo menor corpo num Moulin-a-Vent do que em qualquer outro produto da Borgonha e adjacências. Mesmo este Joseph Drouhin, que não é de produtor mas sim de um negociante, provou o valor de um grand cru de beaujolais. E custou a metade de um nouveau e quase o mesmo preço de um villages. Pelo menos aqui no Brasil. Enquanto na França com poucos euros compra-se um beaujolais recém engarrafado, aqui não sai por menos de cem reais. Ou seja, heresia cometem os devotos da moda que todos os anos, religiosamente, pagam mais de trinta euros por um vinho de seis. E é tão somente por essa razão que, como deseja o santo ofício, eu retiro o que disse sobre gostar de beaujolais. Mas não por falta de corpo, aroma de banana ou qualquer defeito que queiram atribuir a este vinho. Mas pelo custo do marketing. Ou, como quer o ministro Tiago Tudobom, o valor extra que se cobra pela mercadologie.Terça-feira, Outubro 10, 2006
Carpe diem, carpe vinum
Numa manhã sem grandes acontecimentos meu avô despediu-se de minha avó e faleceu pouco antes da hora do almoço. Não chegou a completar um século de existência, como todos esperávamos, mas chegou bem perto. Entre os seus pertences havia duas garrafas de vinho. Guardadas no fundo de um armário há pelo menos trinta anos, ambas foram a mim confiadas por minha avó. Assim, acabei herdando um porto Sandeman Partner's e esta magnífica garrafa de Concha y Toro Chilean Riesling cosecha 1974. Fazer o quê com um riesling de 1974 em 2006? Jogar no lixo, diriam enólogos e enófilos com o pragmatismo que lhes é peculiar e ainda acrescentariam, a título de erudição, que branco desta idade só um Montrachet e olhe lá. Abri a garrafa, evidentemente. A cor variava entre o alaranjado de um chá inglês passado do ponto e o ocre ferruginoso das terras de Siena. O aroma, alguma coisa indefinida e ligeiramente ácida sem no entanto aparentar vinagre. Provei. Naturalmente, não havia mais vinho naquela garrafa, tampouco sua sombra ou degeneração. Repousava ali um retrato em sépia de grandes realizações não acontecidas. Na boca, percebia-se facilmente o gosto meio doce meio amargo de tudo aquilo que poderia ter vindo a tona de maneira esplendorosa e, no entanto, não passou da condição de potência. Vinhos que morrem na garrafa são como paixões que não se concretizam porque uma das duas partes chegou atrasada ao que teria sido o encontro de suas vidas. Vinhos devem ser devidamente degustados no ponto ideal de sua curva, no estado de maturidade, depois da juventude e antes da decrepitude, diriam aqueles outros, os pragmáticos. Digam o que disserem. Em um único gole daquele que um dia foi um concha y toro, podia se experimentar, ainda que por breve instante, o vislumbre do quão espetacular teria sido beber daquele chilean riesling cosecha 1974. Não importa se na juventude, maturidade ou em que ponto de sua curva. Mas sim, numa daquelas manhãs sem grandes acontecimentos, ali por volta do meio-dia, na companhia do velho.
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