Um grande vinho é aquele que você, invariavelmente, se arrepende de ter aberto. Fazer o quê? Já estava com a rolha na mão. Só me restava encher a taça e acabar com aquela sensação de vazio que pairava no ar, apesar dos aromas que se anunciavam. Provei. Me arrependi de não ter reservado uma ocasião mais apropriada. Um vinho desses merecia muito mais. No fim da primeira taça ainda tentei recuar, pensei em tampar a garrafa com aquela rolha de borracha em que se tira o ar por sucção, mas seria um sacrilégio ainda maior. Um imperdoável capricho por uma única taça. Parti para a segunda. Me arrependi de não ter por perto família, amigos, imprensa. Terceira taça. Me arrependi de não ter escrito Cem Anos de Solidão, de não ter beijado a menina mais bonita da escola, de não ter assistido à estréia de As Bodas de Fígaro em 1786, de não ter me alistado do lado dos anarquistas na Guerra Civil Espanhola, de não ter me casado mais vezes com a minha mulher. Na quarta taça ainda havia, mais ou menos, metade da garrafa. Me arrependi de não saber quantas taças cabiam em 750 ml, de não ter sido um aluno melhor em matemática, física, biologia, história, geometria descritiva, de não ter feito mestrado nem doutorado. Na quinta taça, que eu não sabia mais se era a quarta ou a sexta, me arrependi profundamente não lembro mais do quê. Restava ainda um pouco de vinho quando me arrependi de não ter previsto uma trilha musical para aquele momento. Um grande vinho merece bem mais que o silêncio respeitoso de um refeitório de mosteiro. Coloquei um cd. A partir daquele momento seríamos três a testemunhar a grandiosidade daquele encontro. Chorey-les-Beaune 97, Edith Piaf e eu. Seríamos três a cantar non, rien de rien, non, je non me arrepend de rien. Quinta-feira, Março 30, 2006
Mea Culpa
Um grande vinho é aquele que você, invariavelmente, se arrepende de ter aberto. Fazer o quê? Já estava com a rolha na mão. Só me restava encher a taça e acabar com aquela sensação de vazio que pairava no ar, apesar dos aromas que se anunciavam. Provei. Me arrependi de não ter reservado uma ocasião mais apropriada. Um vinho desses merecia muito mais. No fim da primeira taça ainda tentei recuar, pensei em tampar a garrafa com aquela rolha de borracha em que se tira o ar por sucção, mas seria um sacrilégio ainda maior. Um imperdoável capricho por uma única taça. Parti para a segunda. Me arrependi de não ter por perto família, amigos, imprensa. Terceira taça. Me arrependi de não ter escrito Cem Anos de Solidão, de não ter beijado a menina mais bonita da escola, de não ter assistido à estréia de As Bodas de Fígaro em 1786, de não ter me alistado do lado dos anarquistas na Guerra Civil Espanhola, de não ter me casado mais vezes com a minha mulher. Na quarta taça ainda havia, mais ou menos, metade da garrafa. Me arrependi de não saber quantas taças cabiam em 750 ml, de não ter sido um aluno melhor em matemática, física, biologia, história, geometria descritiva, de não ter feito mestrado nem doutorado. Na quinta taça, que eu não sabia mais se era a quarta ou a sexta, me arrependi profundamente não lembro mais do quê. Restava ainda um pouco de vinho quando me arrependi de não ter previsto uma trilha musical para aquele momento. Um grande vinho merece bem mais que o silêncio respeitoso de um refeitório de mosteiro. Coloquei um cd. A partir daquele momento seríamos três a testemunhar a grandiosidade daquele encontro. Chorey-les-Beaune 97, Edith Piaf e eu. Seríamos três a cantar non, rien de rien, non, je non me arrepend de rien. Terça-feira, Março 21, 2006
Madame Pompadour, je presume
Jeanne-Antoinette Poisson, a Madame de Pompadour, foi de longe e de todos os tempos, a mulher mais influente da França. Extremamente culta, inteligente, bela e sedutora, a secretária de ordens e outros assuntos de Luís XV governava Versalhes e os destinos da França com charme, elegância e uma frieza digna de monarca absoluto. Mas a gelada marquesa tinha um ponto fraco: derretia-se toda diante do vinho espumante produzido na região da Champagne. Madame gostava tanto de champagne, e era de tal modo uma entusiasta do vinho que borbulhava pérolas, que serviu de modelo para uma taça criada exclusivamente para se degustar a bebida. A taça, que teve seu desenho inspirado no formato dos seios da marquesa, ficou na moda por séculos até que foi substituída por outra de bojo mais longo e borda afilada, a flute. Esse novo desenho seria mais apropriado para o champagne pois conserva o aroma por mais tempo e permite uma degustação mais, digamos assim, científica do produto. Resultado: guilhotinaram todo o romantismo e hoje há quem tenha pesquisado e descoberto que as bolhas de gás carbônico do chamado perlage são formadas em túbulos com diâmetro de 100 micras e se despreendem a partir do fundo não ao acaso mas sim através de uma fórmula que envolve o número de Weber ( We = 2pRU2 /sigma 10-6-5 "l ) e a Lei de Fick . Cientificidades à parte, fato é que não há mal algum em utilizar a taça original. Afinal, foi necessária uma revolução francesa para que, privilégios outrora exclusivos da realeza como o champagne e os elegantes seios da marquesa, pudessem deixar os salões e alcovas do palácio para, democraticamente, cairem na boca do povo.Quinta-feira, Março 16, 2006
Beber estrelas
Nem só de mistérios celestes ocupava-se a mente dos frades da abadia beneditina de Hautvillers, norte da França. Quando misturavam determinados tipos de uvas para produzir o vinho branco da casa, aqueles irmãos notavam com espanto e assombro o incomum espocar de rolhas e o sobrenatural estourar de garrafas na calada da noite, sem que ninguém houvesse entrado na adega. O mistério foi resolvido quando o frade Perignon decidiu experimentar o efervescente conteúdo daquelas garrafas. Provou da primeira. Da segunda. Da terceira. E lá pelas tantas, iluminado, gritou aos confrades a célebre frase " Estou bebendo estrelas!". Assim, reza a lenda, foi inventado o champagne. Endeusado na corte de Luís XV, o vinho espumante foi definido pela não menos borbulhante Madame Pompadour como a única bebida capaz de tornar mais bonita uma mulher. No mesmo ano em que faleceu Luís XIV, o Rei Sol, Don Perignon tomou seu lugar à esquerda do Altíssimo, como aquele que permitiu a pobres mortais o privilégio de beber estrelas.
Terça-feira, Março 14, 2006
Muito além da Taprobana
Foi-se o tempo em que, com o intuito de descobrir as coisas boas da vida, era necessário reunir armas e brasões e aventurar-se pelo mar sem fim, passando por além da Taprobana, ilha que já se chamou Ceilão, hoje Sri Lanka. Aos atuais habitantes da terra de Camões, basta que se cruze o Rio Tejo para dar de cara com os grandes vinhos daquela região. Apenas no breve périplo da medieval cidade de Évora encontram-se nomes de nobre linhagem como os Reguengos de Mosaraz, Herdade do Esporão e o Tinto Velho Rosado Fernandes, ao lado de outros com menos brasões a ostentar como o Chaminé acima que, minutos após a foto, foi flagrado na companhia de um javali numa mesa do Fialho. Que não se iludam os poetas esses fingidores, nobres ou não, os vinhos regionais alentejanos possuem todos a honestidade e a sinceridade rude e cortante das gentes do campo e dos personagens de Saramago. Sexta-feira, Março 10, 2006
Alentejanas, pois
Se algum dia desses, durante um jantar elegante, elogiarem as pernas do vinho que está sendo servido, não vá fazer a besteira de olhar para baixo da mesa para conferir. Simplesmente gire a taça e concorde com seu interlocutor com o mesmo ar de quem se encontra duas taças à frente e acima da humanidade. Quando gira na taça, em movimento circular e ritmado, o líquido deixa ligeiras marcas transparentes, em forma de pequenos arcos, ao redor do cristal. Ao fenômeno, causado pelo álcool, dá-se o nome de arquetes, lágrimas ou pernas. A palavra arquetes, não há dúvidas, vem do desenho semelhante a pequenos arcos. Pura afetação. O líquido que fica depositado sobre o cristal escorre lentamente como pequenas lágrimas. Um amigo meu que foi assistir Brokeback Mountain e até hoje não saiu do cinema adora essa definição. Cá entre nós, um bom vinho deve ter mesmo é belas pernas. Longilíneas, vigorosas e bem torneadas. Como as que se encontram na foto acima, em momento de meditação, em dúvida se convida o alentejano à sua frente para bailar o gira ou rodopiar o fado.
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