12.6.06

Sir Bob e o Cálice Sagrado





















Em 1966, Robert Mondavi possuia um sítio com algumas parreiras na Califórnia e, talvez pensando na próxima safra de passas Sun Maid, teve a brilhante idéia de importar sementes européias e produzir vinhos finos na propriedade.

A idéia de um vinho made in USA, capaz de concorrer em pé de igualdade com os melhores europeus, ganhou corpo quando a Casa Branca decidiu que somente seriam servidos nos banquetes oficiais pelas embaixadas ao redor do mundo o tal vinho da casa. Da Casa Branca. Com o aval de Mr. President, o vinho norte-americano não ganhou o mundo, é verdade, mas conquistou um mercado muito maior: os Estados Unidos. E Robert Mondavi se tornou a maior referência no assunto, com pinta de astro de Hollywood. 

Quando visitam a vinícola Mondavi, turistas de todas as partes daquele país entram em frenesi diante de uma garrafa de Opus One e esperam pela aparição de Our Bob como se faz pelo Papa na Praça São Pedro. E aí entra o cálice sagrado. No velho continente, a família Riedel, tradicional fabricante dos cristais de altíssima qualidade da Bohemia, dizia ter as melhores taças de vinho de todo o planeta. Só que poucos sabiam disso. Não que não fosse verdade, podia até ser. Mas faltava aquilo que aquele senhor bronzeado pelo sol da Califórnia tinha de sobra: marketing. 

Com toda sua praticidade norte-americana, Mr Mondavi não estava nem aí para taças e muito menos de cristal. Mas quis o destino que, onze gerações depois, os cristais Riedel fizessem a fama em todo o mundo graças a um legítimo representante do povo que toma café em copo de isopor. Foi num encontro entre Georg Riedel e Robert Mondavi que o austríaco propôs ao norte-americano um teste de degustação às cegas. 

Serviram então a Big Bob, taças aparentemente iguais de vinhos aparentemente diferentes. Old Bob provou de todas e, no fim, levantando uma das taças declarou confiante: este é o meu vinho. Estava certo. Aquele realmente era um legítimo Opus One. Como todos os outros que foram servidos no teste. A diferença estava nas taças. A Riedel era aquela que Sir Bob tinha nas mãos. Resultado: naquele mesmo dia, todos os copos da Robert Mondavi Winery foram substituídos por taças Riedel. 

Pouco tempo depois, as taças com o erre estilizado na base ganhavam o mundo e, by appointment to his majesty the king of napa valley, preços entre singelos US$ 10 e estratosféricos US$ 160. Each. Dizem que um dos grandes vendedores de taças Riedel atualmente é a rede de joalherias Tiffany´s. Faz todo o sentido.


2 comentários:

CrissMyAss disse...

Oi Eduardo!
Imagine que já tinha deletado o teu blogue nos meus favoritos, de tão parado que era isso aqui!
Pensei: cansou, ou então tá namorando.
Legal que foi me ver. Legal que voltou a escrever.
Aparece, aqui e lá.
[ ]'s

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Eduardo, muito interessante o que escreve.
Não tenho dúvidas que a relação entre "o que triunfa nos USA" e o que "triunfa no resto do mundo" merece ser pensado. Mesmo nos vinhos.
Note-se também a força dos críticos (R. Parker, claro), que com o seu gosto (americano) influenciou, primeiro, o mercado amerciano, depois, o mercado mundial.

Abraço,

NOG

(Saca a Rolha)