2.3.08

O bom vinho não precisa de rótulo



Os americanos costumam dizer que se você quer que uma coisa saia bem feita, faça você mesmo. Assim, os inventores do do-it-yourself criaram sua receita de como elaborar um super californiano, digamos assim, em apenas três etapas. Primeiro: lance ações em Wall Street. Segundo: escolha uma celebridade para dar nome ao vinho e enfeitar o rótulo. Terceiro: compre uma vinícola no Napa Valley.

Hoje é fácil encontrar nas boas casas do ramo Marilynn Merlots, Elvis Cabernets, Coppola Chardonnays e os não tão coloridos, mas não menos célebres, varietais da família Mondavi. Difícil mesmo é encontrar um autêntico home made wine criado e nascido nas férteis terras do Napa.

Metade das grandes vinícolas da Califórnia começou como vinicultura de subsistência, produzindo Zinfandels no quintal de casa para acompanhar o perú de ação de graças. O negócio prosperou graças ao terroir e ao empreendedorismo estadunidense. Alguns poucos produtores, no entanto, continuaram fazendo vinhos à moda antiga. Com carinho, paciência e o mesmo cuidado com que as avós daquela região assavam tortas de maçã.

Apenas a indicação 02 CAB escrita com esferográfica azul sobre a parte visível da rolha. Ganhei as duas garrafas de meu amigo Glynn Baker, produtor, junto com sua esposa deste autêntico californiano do Napa, nascido e criado no mesmo código postal dos Opus One e dos Caymus, seus mais renomados vizinhos.

Observando a garrafa nua, tive vontade de vestí-la com uma gravura de Picasso e dar-lhe um nome qualquer como Mouton ou Rothschild. Bobagem, pensei. Como bem dizem os franceses, o bom vinho não precisa de rótulos.