Na noite de 7 de junho de 1867, Alexandre II, tsar da Rússia, Alexandre III, seu filho e sucessor, e Guilherme I, rei da Prússia e futuro kaiser do império alemão, protagonizaram o maior espetáculo gastronômico de que se tem registro nos anais da História. O palco de tal acontecimento foi o mítico Café Anglais, em Paris.Para o jantar, que ficaria entronizado como o Banquete dos Três Imperadores, foram preparados suflês de creme de galinha à moda do Reno, filés de linguado à veneziana, ensopados de galinha à portuguesa, beringelas à espanhola, lagosta à moda de Paris e ortolans, pequenos passarinhos, à moda de Rouen. A tradução em português fica a dever à magnitude do menu cujo texto original, por si só, justificaria a emergente Comuna de Paris e a precedente Revolução Russa. Principalmente pelos vinhos servidos:
Vins
Madère retour des Indes, 1846
Xerès, 1821
Chateau Yquem, 1847
Chateau Margaux, 1847
Chambertin,1846
Chateau Latour, 1847
Chateau Lafite, 1848
O Café Anglais foi citado no cinema em Festa de Babette. Após preparar um banquete digno de reis para um pequeno grupo de habitantes de uma vila camponesa, a chef Babette, quando perguntada sobre como foi possível consumir um prêmio de loteria em uma única noite, responde: " é o preço de um jantar para dez pessoas no Café Anglais." Emblemático de seu tempo, o Café Anglais desapareceu junto com a época da qual foi protagonista. Foi demolido em 1913. Estive lá duas semanas atrás.
Não mais se localizava no Boulevard des Italiens, mas na pequena vila incrustada na Serra da Mantiqueira. Os chefs não mais eram Adolphe Dugléré e sua promissora assistente Babette, mas Maria Olimpia Fortes e Frederic Silva. De resto, tudo permanecia igual. A sopa de camarões acima veio acompanhada de um jerez amontillado. Fazendo par com o Clos Vougeot da Borgonha ali do lado, codornas recheadas com foie gras e dispostas em pequenos sarcófagos à moda do Vale dos Reis do Egito.
Ainda seriam servidos blinis que se desmanchavam na boca feito hóstias, sobremesas feitas com amoras do pé ali do lado e um destilado de champagne, este último sob a noite estrelada. A confraternização ainda se estenderia abóbada celeste adentro. Mas não fui até o momento em que os sisudos e sofridos camponeses se auto-proclamam reis. Recolhi-me mais cedo. O sol não tardaria a raiar e alguém ali precisava tomar conta do vasto Império.
