
Vinhos lendários não são privilégio apenas dos povos europeus. Os brasileiros também ostentamos em nosso breve curriculum de degustadores nomes míticos que, ainda que tenham caído de moda, ocupam lugar de honra no inconsciente coletivo enológico nacional. Por isso, não se faz necessário recorrer a Jung ou Freud para se descobrir, por trás da máscara de bebedores da tradição da Borgonha ou da modernidade supertoscana, o arquétipo fundador do leite da mulher amada.
O Liebfraumilch representou mais do que um vinho para a cultura enológica brasileira, foi um rito de passagem. Da infância para a adolescência, com suavidade, doçura e a mesma ingenuidade. Produzido na Alemanha apenas para exportação, o doce vinho suave do Reno, considerado em seu país de origem como de baixa qualidade, conquistou o mercado brasileiro na qualidade de importado e passou a se destacar na prateleira dos supermercados, não apenas pelo nome, mas também pela garrafa.
Sobre o mítico vinho da garrafa azul circulavam várias lendas. Uns diziam que era de alta qualidade pois ostentava o selo Qualittatswein, outros afirmavam que era produzido no norte da África e seria envasado em azul turquesa para justificar o preço que se pagava por ele. Fato é que o comerciante que teve a idéia de trazer o vinho e mudar a cor da garrafa criou fama, fortuna e a maior importadora do país.
A primeira vez que jantei na casa da minha namorada levei um Liebfraumilch. Há pouco, dei com esse garrafa azul safra 2003. Achei que não poderia haver no mundo vinho com a pior relação custo x benefício, mas estava enganado. Diante do carrinho de compras, a mulher amada perguntou o porquê daquele vinho. Expliquei. Passados dezoito anos, tinha daquele primeiro a impressão de um Montrachet.
