Em 1787, o luxo da corte de Luís XVI e Maria Antonieta arrasavam o império francês, Mayer Amschel Rothschild iniciava a construção do maior império financeiro mundial e a idéia de mercado não era diferente de uma feira local. Nos campos arrasados pela fome, mesmo antevendo a revolução que mudaria os rumos da França e do velho continente, as uvas de Bordeaux seguiam seu inexorável destino: as barricas de carvalho.Depois de 220 anos escondida no porão do chateau, tendo sobrevivido a uma revolução francesa, duas guerras mundiais e à voracidade de um mercado que se converteu em uma grande feira mundial, uma garrafa de Chateau Lafite Rothschild safra 1787 é posta à venda na internet por três milhões de dólares:www.antiquewine.com.
Penso naquelas pobres uvas, cultivadas, colhidas e pisadas por servos com raros direitos e plenos deveres e dívidas para com o nobre senhor do castelo. Pois são essas uvas que, mesmo não tendo freqüentado os banquetes de Versalhes nem tendo feito companhia aos brioches de Madame Antonieta, seguem agora para a guilhotina burguesa. Resta saber se o abastado comprador deste Chateau Lafite Rosthschild 1787 terá a coragem de decapitar a cabeça e verter o sangue da última testemunha viva do Antigo Regime.
Sem meios nem fundos para resgatar tal garrafa, decido brindar à sua sorte na companhia de um de seus descendentes, o chileno Los Vascos, produzido pela Casa dos Barões de Rothschild no novo mundo. Um vinho que, apesar do sobrenome, tem aroma de liberté, sabor de egalité e deixa na boca um gosto de fraternité. Além das melhores impressões, o Chateau Los Vascos também deixa em seus compradores, tirando os 45 reais que se paga por ele, a sensação de se ter feito um verdadeira barganha e conseguido por ele um inacreditável desconto de 3 milhões de dólares.
