Os arqueiros do poderoso exército persa treinavam a pontaria sob o olhar atento do rei Djemchid quando uma cena incomum quebrou a concentração daquele momento. Nas proximidades da zona de tiro, uma serpente envolvia e sufocava uma majestosa ave. Sem pestanejar, o soberano ordenou que fosse plantada uma flecha certeira na cabeça do ofídio mal-intencionado. Agradecida, a ave depositou aos pés do nobre comandante um punhado de sementes que este, imediatamente, mandou semear. Quando a desconhecida planta germinou, o suco de seus frutos passou a ser muito apreciado pelo rei. No entanto, passado algum tempo, este suco ficava amargo e acabava esquecido pelo palácio. Certa noite, para se ver livre de uma brutal enxaqueca, uma das escravas favoritas do rei desejou morrer e bebeu de um só gole todo o conteúdo do tal suco estragado. Ao contrário do efeito pretendido, o suposto veneno a deixou mais leve, muito mais solta e imensamente feliz. Impressionado com tal entusiasmo, Djemchid liberou a todos a bebida, que passou a se chamar Darou-é-Shah, o remédio do rei. E assim, do harém para o povo, o vinho conquistou a Pérsia. Quando fundou Persépolis, o grande Cambises, descendente de Djemchid, mandou plantar em todo o entorno da cidade, as vinhas que deram origem aos célebres vinhedos de Shiraz, cidade das rosas, dos poetas e do vinho, situada no atual Irã.Como num conto das mil e uma noites, em visita a uma loja de vinhos, dei de cara com aquela garrafa mágica. Já em casa, enquanto admirava o rótulo deste Quinta do Valdoeiro Syrah, ou Shiraz, percebi que a rolha lentamente sufocava seu vibrante conteúdo. Com a precisão de um arqueiro persa, libertei o majestoso bairrada de raízes mouras. Agradecido, o vinho me presenteou, não com sementes, mas sussurando tal qual uma sedutora Sherazade a mais bela das pouco conhecidas quinze ruba'iyat, quadras da composição poética tradicional persa, que o maior dos poetas ocidentais, Fernando Pessoa, fez em homenagem a seu correspondente oriental, o persa Omar Khayyam.
Troca por vinho o amor que não terás
O que esperarás, perene o esperarás
O que bebes, tu bebes. Olha as rosas.
Morto, que rosas é que cheirarás?
Comovido e imensamente agradecido, prometi a este incomum vinho português 100% shiraz que faria da primeira linha desta ruba'i a mais inspiradora e reveladora epígrafe que um romance jamais teve.

