O sobreiro é árvore sábia, longeva e generosa, como seus conterrâneos ibéricos. Vive entre 150 e 200 anos numa região privilegiada do planeta e é o grande fornecedor da cortiça, material ideal para a conservação e a maturação do vinho.
Durante os quase 2 séculos de vida de um sobreiro são feitas 16 extrações da casca, sempre de 9 em 9 anos. Nas duas primeiras, o material ainda não está pronto para uso. Para a fabricação de rolhas, vale a partir da terceira retirada, quando o sobreiro já tem por volta de 30 anos de idade. Pelas marcas deixadas no tronco, o sábio agricultor conhece, não apenas a idade e a quantidade de extrações, mas a vida de cada sobreiro.
Há séculos, a técnica de retirada é feita da mesma forma e grandes vinhos se tornaram ainda maiores graças à rolha de cortiça. Recentemente chegaram ao mercado a rolha sintética de borracha e os vinhos com tampa de rosca. Consumismo vão. Estas alternativas podem até conservar o vinho com razoável honestidade, mas não contam histórias.
Até o momento em que está na garrafa, uma rolha cumpre com dignidade a missão de conservar o valor da bebida. Uma vez aberto o vinho, a rolha muda de função e passa a contar uma história. A história de quem viveu aquele momento. A sua história. Por isso, o sábio não mede sua vida em dias, meses ou anos, mas em rolhas. Por isso, o sábio não mede sua riqueza pelo número de garrafas que repousam em sua adega, mas no número de rolhas que já passaram pelas suas mãos.
Pequenos cilindros de cortiça que registraram, cada qual em seu momento, diferentes sentimentos, sensações, pensamentos, paixões, encontros, desencontros, divagações, prazeres, inspirações ou, em apenas uma palavra, experiências. Passagens da vida que tiveram por testemunha uma garrafa de vinho geralmente são experiências que vale a pena lembrar e guardar.
Não por acaso, disse o maior de todos os sábios, aquele nascido em terra de grandes sobreiros, que fingia-se poeta mesmo o sendo e para quem tudo valia a pena não sendo a alma pequena: " A vida é boa, mas melhor é o vinho."
Nunca deixe de ter seu vinho preferido sempre perto de você. A falta de uma simples garrafa ao alcance das mãos tem o poder de arruinar um império. Que o diga Napoleão Bonaparte.
Desde que deixou a casa dos pais, na Córsega, o futuro imperador da França sempre manteve perto de si uma garrafa do vinho de sua terra natal. Durante a estada na região da Borgonha, o então oficial de artilharia Bonaparte conheceu o tinto Chambertin e se tornou um fã incondicional. A partir daí, alistou em sua dieta militar o tinto encorpado produzido na comuna de Gevrey-Chambertin, entre Beaune e Dijon.
Preferia degustar o vinho no front. Longe da pompa e das circunstâncias dos banquetes oficiais. Para essas últimas ocasiões, e para as noites em companhia de sua Josefina, preferia o champagne: " merecido nas vitórias, necessário nas derrotas". Não à toa, a Casa Möet & Chandon batizou seus bruts com a palavra imperial.
Conta-se que Napoleão também foi um grande apreciador de cognac. Política. O soldado gostava mesmo era de vinho e tinto. Na hora do rancho, sem frescuras, comia com as mãos e esfregava o pão no molho que sobrava no fundo do prato, sempre na companhia de meia garrafa de Chambertin que, fiel aos hábitos e infância, diluia com um pouco de água.
Para ocupar o Egito, levou uma provisão tão grande da bebida que, ao retornar vitorioso com várias caixas, primeiro elogiou a resistência de seu vinho, depois, de seus exércitos. Quando invadiu a Rússia, sabendo que a batalha ali era dura, aumentou o estoque. Com uma taça na mão, celebrou a vitória em Borodin contra as tropas do General Kusov. Na mesma campanha, chegando em Moscou, encontrou uma cidade vazia e em chamas. Como ninguém sobrevive ao inverno russo sem vodka, teve de se retirar às pressas. Na operação, para abater o moral do imperador francês, os cossacos aproveitaram para surrupiar algumas das preciosas caixas de sua adega itinerante.
Para Napoleão, não havia campanha militar sem que houvesse vinho. " Sem vinho, sem soldados" . Tivesse levado a sério sua célebre frase, a história seria outra. Uma única vez não houve vinho entre as provisões do invencível exército francês. Na última da batalhas. Waterloo.
Exilado na ilha de Santa Helena, o grande imperador morria aos poucos, não envenenado pelos ingleses como se acredita, mas pela falta de pinot noir. Por castigo, só lhe serviam " aqueles vinhos fraquinhos de Bordeaux".