1.11.06

Alguma coisa como avec le tout que tu plus aime e vice-versa






















Além da capacidade de transformar chumbo em ouro e de esticar seu período de permanência neste mundo pelo tempo que quisessem, os sábios alquimistas detinham um fantástico poder de síntese. Com uma única frase, resumiam todo o imenso conhecimento adquirido em vários séculos de dedicação à Grande Obra. Solve et Coagula, dissolver e se transmutar, é o maior dos segredos da Natureza, como bem intuiu Lavoisier. 

Segredos, é sabido, há em todas as artes. Como naquela que consiste em combinar o vinho com a comida e seus temperos ocultos. Sobre a arte da harmonização de vinhos e jantares, há muito mais livros, teses e tratados do que se pode ler em uma única vida. E, no entanto, tal conhecimento pode ser expresso em poucas palavras, uma única frase que o bom senso me autoriza revelar. 

O sol já declinava no horizonte quando entrei naquela espécie de mercearia na pequena vila incrustada nas montanhas do Luberon, coração da Provence. Peguei duas garrafas do vinho daquele lugar, que com meus poucos e contados euros podia facilmente comprar, e tão logo me dirigi ao caixa fiz o que na hora imaginei ter sido uma grande besteira. Não sei onde estava com a cabeça quando interpelei a senhora rechonchuda e de faces rosadas para perguntar aquilo que todos os habitantes do campo já sabem antes mesmo de nascer. Com que comida deveria provar aquele vinho? 

Não sei se foi pelo meu francês precário ou pela impertinância da pergunta, mas ela não respondeu de pronto. Me fitou séria e calada por uns dois ou três minutos que pareceram uma eternidade. Eu pensava em pedir desculpas, devolver as duas garrafas à prateleira e sair correndo dali quando ela abriu um imenso sorriso e, com a doçura que se dedica às crianças e àqueles que ainda estão aprendendo, falou alguma coisa como avec le tout que tu plus aime

Então era isso. Um bom vinho é aquele que você gosta e que, por isso, combina perfeitamente com tudo aquilo que você também ama. Ou seja, para dominar os segredos da alquimia de sabores a que chamam harmonização, bastam intuição e bom gosto. Iluminado pela luz do Luberon, fui jantar em um restaurante que outrora abrigara uma abadia. 

Para comemorar minha nova condição de adepto, pedi um Chateau Simone, que por lá se denomina o grand cru da Provence. Em algum estado entre as coisas simples da vida e o êxtase místico, fui despertado por uma observação daquela que amo. Naquele momento, logo após ouvir o comentário de que o jantar estava simplesmente divino, compreendi mais uma das sábias frases dos antigos filósofos herméticos. Tudo o que há na terra tem seu correspondente no céu. E vice-versa.


13 comentários:

A Taste in Heaven disse...

Obrigada pelo comentário sobre a foto do splash!! Mas infelizmente essa foto não foi tirada por mim. Algumas fotos no meu blog são tiradas por mim, outras não.
Adorei as informações sobre o Chateau Simone! Gosto muito de visitar seu blog!

Vivianne

Karen disse...

Ah! Que sabedoria a dessa senhora...

Vinho para Todos disse...

Eduardo, acabo de inserir no meu blog um link para o "Pisando em Uvas". Gosto muito de seus textos e fotos. Parabéns!

João Barbosa disse...

O texto é delicioso!

gugala disse...

sempre saboroso ficar pisando e farejando por aqui.
abç

Teresa disse...

Essa distinta senhora do Luberon sabe das coisas, né não? Essa é, para mim, a mais linda região da França.

Suzi disse...

Reunir o que mais amamos: a comida preparada com as proprias maos, perfumada com os temperos da horta da janela, montada passo a passo a partir de ingredientes pensados e escolhidos, servida em lindos pratos, degustada em excelente companhia e regada a um delicioso vinho: nem precisa de nada correspondente. Já é o paraíso.
beijos

Chiquinho Badaro disse...

gostei do seu blog.excelentes textos.
abs

CrissMyAss disse...

Eduardo
Se é pra comentar poesia nas paredes da FAU - UFRJ, uma que me marcou pro resto da vida dizia assim: "Não liguem pro que ele diz", escrita em letras garrafais logo acima de um quadro negro no terceiro andar.
Bem que eu fiz em seguir este conselho!
bjs

Pingus Vinicus disse...

Caro Eduardo, mais uma vez brilhante nos textos.

Teresa disse...

vamos atualizando, mocinho?

Teresa disse...

Quinta-feira passada (como toda terceira quinta-feira do mês de novembro) teve o lançamento do Beaujolais nouveau. Eu li em algum lugar que a tradição vai ser encerrada porque o vinho novo é muuuuuuuuito ruim.

CrissMyAss disse...

Tomara que não, pelo menos não o vin nouveau que eu tive ocasião de beber até cair em Strassbourg.